Exclusão e miséria


A situação de exclusão social e miséria que vive a população árabe fica evidenciada nos recentes acontecimentos de amplas mobilizações sociais, com o povo nas ruas exigindo o fim de governos ditatoriais, corruptos e aliados das potências imperialistas ocidentais. Os habitantes do Norte da África (Magreb) e Oriente Médio têm em comum as péssimas condições de vida e a atuação predatória das grandes multinacionais petrolíferas ocidentais.
[Caroline Santos, Sintese.org.br, 17-02-2011]
Memórias de uma época - I

20100531

Frota Gaza Livre cumpre seu objetivo moral

Ataque militar de Israel contra a Frota da Liberdade sofre fortes reações dos países árabes e críticas severas de vários países

O Exército de Israel atacou, na madrugada desta segunda-feira (5h local - 23h de Brasília, domingo), um comboio de seis barcos organizado pela ONG Free Gaza, liderado por uma embarcação turca, que transportava mais de 750 pessoas e 10 mil toneladas de ajuda humanitária para a faixa de Gaza, deixando ao menos dez mortos e cerca de 30 feridos. O "Canal 10" da televisão israelense assegurou que pelo menos 19 pessoas morreram e 36 ficaram feridas no ataque.

As imagens filmadas por um barco turco, e disponibilizadas na internet, mostram oficiais israelenses vestidos com roupas negras descendo de helicópteros e enfrentando os ativistas. Também são vistos vários feridos deitados no convés. "Na escuridão da noite, os militares israelenses desceram de um helicóptero para o barco turco de passageiros 'Mavi Marmara' e começaram a atirar quando pisaram no convés", afirma o site do Movimento Gaza Livre. As imagens tremidas mostram cenas de caos, com sombras de navios com mísseis israelenses ao fundo.

Os episódios de violência ocorreram a bordo do barco turco Mavi Marmara, que fazia parte da frota de seis navios destinados a romper o bloqueio à Faixa de Gaza, em uma ação do movimento Free Gaza.

O número dois do Ministério de Exteriores israelense, Daniel Ayalon, culpou os tripulantes da expedição pelo ataque militar israelense à "Frota da Liberdade".

Israel defendeu sua ação, argumentando que ativistas armados atacaram soldados israelenses enquanto eles eram levados de helicóptero para o convés de um navio. Afirmou que a arma de um de seus soldados foi tomada e usada para atacar os próprios militares do país. Ainda segundo o Exército israelense, ficaram feridos pelo menos 12 ativistas e 10 militares israelenses.

Em comunicado, o Exército israelense assegura que dois "ativistas violentos sacaram os revólveres" de suas tropas "e aparentemente abriram fogo contra os soldados, como provam os cartuchos vazios dos revólveres". O comunicado também assegura que "os organizadores" – entre eles a ONG turca IHH – têm "estreitos laços" com "organizações terroristas internacionais".

Na entrevista coletiva, o ministro Ayalon destacou que seu país "fez todo o possível para deter" a frota, mas seus integrantes "responderam inclusive com armas". "Nenhum país soberano toleraria essa violência". O ministro pediu que "todos os países trabalhem juntos para acalmar a situação" e que não sejam "pessimistas demais" sobre as consequências que possa ter a operação nas relações diplomáticas de Israel com outros Estados.

Antes da partida dos barcos, os organizadores da flotilha haviam informado que vários parlamentares europeus integrariam a frota humanitária, mas não está claro se algum desses políticos está entre as vítimas. O certo é que lá estavam membros de organizações da sociedade civil de 32 nacionalidades, incluindo uma cineasta brasileira.

O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, decretou três dias de luto nos territórios palestinos, mas não manifestou intenção de interromper o diálogo indireto de paz que mantém com Israel. “O que Israel cometeu contra os ativistas da 'Frota da Liberdade' é um massacre".

Um dos principais assessores de Abbas, o chefe negociador palestino Saeb Erekat, qualificou o ocorrido de "crime de guerra" que "confirma que Israel age como um Estado acima da lei". Ele pediu uma resposta "rápida e apropriada" da comunidade internacional.
"Eram embarcações civis, que levavam civis e bens civis - remédios, cadeiras de rodas, comida, materiais de construção - para os 1,5 milhão de palestinos fechados por Israel. Muitos pagaram com suas vidas. O que Israel faz em Gaza é horrível, nenhum ser humano esclarecido e decente pode dizer algo diferente".
O porta-voz da Palestina, Nabil Abu Rudeina, qualificou a ação de
"[...] crime contra a humanidade, já que foram atacados ativistas que não estavam armados e tentando romper o bloqueio sobre Gaza, fornecendo ajuda. (...) A agressão israelense terá perigosas consequências na região e no mundo".
O primeiro-ministro palestino, Salam Fayyad, diante das câmaras, assegurou que nada pode justificar o “crime” cometido hoje por Israel.
“Esse crime reflete mais uma vez a falta de respeito de Israel pelas vidas de civis inocentes e pelo direito internacional”.
O chefe de Governo em Gaza do movimento islâmico Hamas, Ismail Haniyeh, qualificou o ataque como "brutal" e convocou um Dia da Ira, ou seja, que os palestinos tomem as ruas em protesto pelas mortes.

Todos concordam que Israel passou das medidas

A Alta Comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas, Navi Pillay, comovida com as informações do ataque, destacou sua "profunda preocupação" com as ordens militares recentemente impostas em Israel em relação a Gaza.
"Na Faixa de Gaza, o bloqueio continua menosprezando diariamente os direitos humanos de seus cidadãos. Houve muitos poucos avanços na quantidade de produtos que se permite entrar na região. A situação atual está longe de permitir que os cidadãos de Gaza levem uma vida normal e digna".
O vice-primeiro-ministro turco, Bülent Arinç, disse que a Turquia suspendeu seus exercícios militares conjuntos com Israel, país com o qual havia criado uma forte relação econômica e militar.
"Com seu comportamento, Israel prejudicou seriamente a consciência pública internacional. (...) Espero que o bloqueio desumano (a Gaza) seja suspenso (...) Este incidente ressalta mais uma vez a temeridade de Israel. É uma mancha negra na história da humanidade".
O ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, disse estar "profundamente chocado pelas consequências trágicas da operação militar de Israel", realizada contra "uma iniciativa humanitária". Em comunicado, Kouchner afirmou que "nada poderia justificar o uso de tal violência, que nós condenamos". O presidente francês, Nicolas Sarkozy, condenou o uso da força "desproporcional" por Israel.

O ministro das Relações Exteriores britânico, William Hague, condenou a perda de vidas e afirmou que esse incidente mostrou que há "uma clara necessidade de que Israel aja com comedimento".

Israel reforçou a segurança no país, nesta segunda-feira, temendo protestos de palestinos e mais distúrbios. Em Istambul, pelo menos 10 mil pessoas protestavam contra a ação israelense. Os manifestantes na maior cidade turca gritavam pedindo "vingança" contra Israel.

A Organização da Conferência Islâmica, que representa países islâmicos, condenou a ação israelense. A Arábia Saudita qualificou o incidente como "uma violação muito séria da lei internacional".

O Egito convocou o embaixador israelense para pedir explicações. A Jordânia e a Espanha também condenaram a ação dos militares israelenses. A Turquia anunciou que estava retirando seu embaixador de Tel-Aviv. O escritório do primeiro-ministro israelense advertiu os cidadãos locais para que não viajem à Turquia, temendo retaliações, sugerida pela Turquia.

O ministro de Informação da Jordânia, Nabil Sharif, disse que o ataque "violou todos os princípios humanitários e as leis internacionais, porque nada justifica o uso da força contra a expedição humanitária.

A Síria apoiou o pedido da reunião da Liga Árabe, sugerido pela Turquia, enquanto o governo do Líbano emitia comunicado condenando "o selvagem ataque israelense contra civis".

O ministro de Defesa do Irã (segundo a agência ILNA) fez um apelo aos países do mundo para que cortem todas as relações com Israel.
"O mínimo que a comunidade internacional deveria fazer com relação ao horrível crime cometido pelo regime sionista é boicotá-lo totalmente e cortar todas as relações diplomáticas, econômicas e políticas com o regime sionista".
Já o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, considerou o ataque como um "ato desumano do regime sionista".
"Este ato contra o povo palestino e o feito de impedir que a ajuda humanitária chegasse a Gaza não é um sinal de força, e sim de debilidade desse regime. Tudo isso mostra que o fim deste regime sinistro está mais próximo que nunca".
Os EUA emitiram nenhuma palavra repreendendo Israel, país do qual são parceiros, mas mostraram-se solidários às vítimas.
"Os EUA realmente sentem pela perda de vidas e pelos ferimentos causados, e está atualmente trabalhando para entender as circunstâncias que rodeiam essa tragédia." (porta-voz da Casa Branca Willian Burton).
A Alemanha considera o ataque israelense como sendo "a primeira vista", de caráter "desproporcional", afirmou Ulrich Wilhelm, porta-voz do governo alemão, que raramente dirige críticas à Israel.
"Os governos alemães sempre reconheceram o direito de Israel a defender-se, mas esse direito deve dar-se em marco de uma resposta proporcional" (Wilhelm).
Clima tenso acompanhava a frotilha 

A cineasta brasileira Iara Lee (de origem coreana, radicada nos Estados Unidos) estava a bordo de um dos barcos atacados. O último contato feito por Iara ocorreu ontem à noite, quando, segundo amigas, ela postou mensagem no site Facebook, anunciando que o barco em que ela estava fora cercado pela Marinha de Israel. A brasileira embarcou na última quinta-feira a partir da Turquia e vinha dando notícias graças a uma conexão internet disponível no barco em que ela estava. Em carta escrita antes do embarque, Iara justificou a participação na missão Free Gaza, dizendo que pretendia chamar atenção para o que ela considera "grave abuso de direitos humanos" cometidos por Israel na faixa de Gaza.
"Normalmente eu consideraria uma missão de boa vontade como esta completamente inócua. Mas agora estamos diante de uma crise que afeta os cidadãos palestinos criada pela política internacional. É resultado da atitude de Israel de cercar Gaza em pleno desafio à lei internacional. Embora o presidente Lula tenha tomado algumas medidas para promover a paz no Oriente Médio, mais ação civil é necessária para sensibilizar as pessoas sobre o grave abuso de direitos humanos em Gaza (...) Eu me envolvo porque creio que ações resolutamente não violentas, que chamam atenção ao bloqueio, são indispensáveis para esclarecer o público sobre o que está de fato ocorrendo. Simplesmente não há justificativa para impedir que cargas de ajuda humanitária alcancem um povo em crise" (Iara Lee)

[Com informações da AFP]

3 Comentário(s):

[Portal Terra],  2 de junho de 2010 19:02  

Último barco da frotilha Gaza Free aproxima-se da Palestina

Um barco irlandês se encontra no Mar Mediterrâneo a caminho da costa de Gaza, com a intenção de tentar furar o bloqueio de Israel e levar ajuda à população local, apesar dos alertas das forças de segurança israelenses de que ele poderia ser interceptado.

O barco irlandês fazia parte da frota que foi atacada por soldados israelenses no fim de semana, mas tinha ficado para trás por causa de problemas mecânicos.

O barco, comprado por ativistas pró-palestinos, leva o nome de Rachel Corrie, americana de 23 anos morta em Gaza em 2003 ao tentar impedir uma escavadeira de demolir uma casa palestina.

Entre seus seus passageiros está a ganhadora do prêmio Nobel da Paz Mairead Maguire.

Anônimo,  5 de junho de 2010 19:28  

Um povo sufocado pelo bloqueio

Devido ao bloqueio, cerca de 80% da população de Gaza depende da ajuda internacional para sobreviver. Segundo dados oficiais, mais da metade dos habitantes vive abaixo da linha de pobreza e pelo menos 40% estão desempregados. Desprovidos de recursos naturais, os palestinos em Gaza sofrem uma escassez crônica de água e quase não tem indústria. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 61% deles vivem em situação de insegurança alimentar.

Agências humanitárias e altos funcionários da ONU reconhecem que o auxílio prestado à região não é suficiente para suprir as necessidades da população do território, nem para a reconstrução da região devastada por uma operação militar israelense em 2008. Nos últimos dois anos de bloqueio, a quantidade de ajuda que chegou a Gaza raramente atingiu os 20% do total de bens que Israel permite chegar ao território, denuncia a advogada americana Allegra Pacheco, que trabalha para o Programa de Desenvolvimento da ONU (Pnud).

[Joana Duarte, Jornal do Brasil]

Anônimo,  5 de junho de 2010 19:33  

Sob escolta policial

Os militantes pró-palestinos e a tripulação da embarcação irlandesa de ajuda a Gaza Rachel Corrie foram levados sob escolta policial ao aeroporto internacional de Ben Gourion, perto de Tel Aviv, e deverão ser deportados no domingo, anunciou a porta-voz do Serviço de Imigração.

As forças de Israel abordaram sem violência o navio mercante Rachel Corrie, que tentava levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza, cinco dias depois do sangrento ataque à frota internacional que deixou nove mortos. Sob escolta, Israel levou o navio ao porto israelense de Ashdod (sul do país) neste sábado.

[Agência AFP]

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